O último encontro da Rede Temática de Grantmaking, realizado no mês de agosto na sede do Instituto Beja, em São Paulo, reafirmou a centralidade dessa agenda para os associados do Gife. Mais do que um mecanismo de financiamento, o grantmaking foi reconhecido como prática estratégica para fortalecer a sociedade civil, sustentar a democracia e enfrentar desafios como a equidade racial e a crise climática. Logo na abertura, Cassio França, secretário-geral do GIFE, lembrou que “o fortalecimento da democracia brasileira passa pelo fortalecimento das organizações da sociedade civil, e o grantmaking é chave nesse processo”. Reunidos nesse espírito, associados e convidados compartilharam aprendizados, inquietações e perspectivas, num espaço que uniu reflexão crítica e construção de caminhos práticos.

A reunião foi marcada pela renovação da coordenação da rede, agora composta também pela Fundação André e Lúcia Maggi, Itaúsa e B3 Social, além de Erika Sanches e Pamela Ribeiro (Instituto ACP), Guiné Silva (Fundação Tide Setúbal), Luiza de Mello e Souza (Instituto Clima e Sociedade) e Iara Rolnik (Instituto Ibirapitanga).
Para Aletéa Rufino, da Fundação André e Lúcia Maggi, a chegada à coordenação representa “o orgulho de trazer a diversidade regional do Mato Grosso, Amazonas e Rondônia”, sinalizando o papel estratégico de ampliar a representatividade de diferentes territórios da filantropia. Já Natália Cerri, da Itaúsa, destacou “a importância de fortalecer uma filantropia corporativa mais doadora”, lembrando que no Brasil ainda são poucas as empresas que atuam com doações diretas para o campo. Fabiana Prianti, da B3 Social, anunciou o simbólico “toque da campainha pelo dia da filantropia” (a ser realizado no dia 20 de outubro), gesto que pretende valorizar o setor diante da sociedade e do mercado financeiro.
Ao mesmo tempo, o encontro foi enriquecido por contribuições vindas de fóruns internacionais. No Skoll World Forum 2025, em Oxford, o clima de “glamour” das premiações deu visibilidade à potência das lideranças no campo. Foi também ali que Darren Walker, da Fundação Ford, reforçou a urgência de apoios institucionais e irrestritos, diante do esgotamento do modelo baseado em projetos. Já o Philea Forum 2025, em Portugal, refletiu o peso da guerra e do avanço da extrema-direita, trazendo o debate sobre a crise da relação entre Estado, filantropia e sociedade civil, mas também a sensação de estagnação em torno de temas recorrentes como confiança e doações irrestritas. O The 2025 EDGE Conference, na Colômbia, destoou dos demais ao reunir movimentos sociais e fundos independentes em torno de práticas participativas e de ruptura com lógicas coloniais, num tom mais ousado e provocativo. Por fim, o Congresso GIFE 2025, realizado em São Paulo, reafirmou o chamado a desconcentrar poder, conhecimento e riquezas, traduzindo-o em pautas concretas como desenvolvimento institucional, equidade racial e apoios de longo prazo. Esse percurso evidenciou que, embora haja temas comuns globalmente, a filantropia brasileira se coloca com contribuições próprias e caminhos singulares a compartilhar.
Fóruns internacionais em perspectiva
- Skoll World Forum 2025 – A Arte de Reparar (Oxford, Reino Unido): referência internacional em inovação social, reunindo empreendedores, organizações e financiadores em torno de soluções sistêmicas para desigualdades e mudanças climáticas.
- Philea Forum 2025 (Bilbao, Espanha) – Poder e igualdade: um ato de equilíbrio: principal encontro de fundações e doadores europeus, voltado a debater a relação entre filantropia, democracia e sustentabilidade.
- The EDGE Funders Conference 2025 – Da Promessa à Ação: Responsabilidade na Filantropia (Bogotá, Colômbia): espaço de encontro para a filantropia de justiça social, com foco em redistribuição de poder, práticas decoloniais e protagonismo do Sul Global.
Erika compartilhou uma apresentação com imagens e alguns destaques dos encontros que participou, clique aqui para acessar.
“Embora esse discurso não seja novo, permanece como um desafio estrutural, especialmente para organizações negras, periféricas e comunitárias, que ainda enfrentam descontinuidade no apoio e barreiras de acesso a recursos” – como destacou Erika, o desafio atual é transformar em práticas agendas que há anos estão no discurso, como confiança, apoio de longo prazo e menos burocracia. Para ela, a filantropia só avança quando cria condições reais de fortalecimento das organizações de base, o que exige tanto ampliar os apoios institucionais quanto adotar formatos mais horizontais e participativos. “Precisamos ir além da retórica e experimentar novas formas de fazer, que valorizem o conteúdo e a autonomia das organizações”, afirmou.
Ao mesmo tempo, reforçou-se o entendimento de que a filantropia não é neutra. “Não existe filantropia neutra. Se temos compromisso com valores e com a redução das desigualdades, não dá para sermos neutros ou apolíticos”, afirmou Iara, conectando sua fala a uma tendência internacional que vem ganhando força em fóruns como o Philea: a explicitação do caráter político das doações e da necessidade de assumir posicionamentos diante de retrocessos democráticos. Nesse sentido, os debates revelaram tanto o risco de uma filantropia “recreativa” ou “adestradora”, que impõe lógicas externas aos territórios e organizações, quanto às oportunidades de uma prática mais participativa, colaborativa e enraizada.
Entre as tendências apontadas, destacou-se a transição geracional, com herdeiras mulheres assumindo protagonismo em fundos familiares, trazendo novos valores à filantropia. Guiné lembrou que jovens herdeiras, como Abigail Disney, têm transformado práticas em fundos familiares e trazido novos valores à filantropia. Também houve consenso sobre a crescente relevância do Sul Global, em especial do Brasil, como referência para práticas inovadoras de grantmaking. Para Iara, “a Europa vive hoje uma crise da tríade Estado–filantropia–sociedade civil”, referência feita a partir do artigo de György Hámori (Roots and Wings Foundation) e Alina Shenfeldt (Philea), publicado no site da Philea, que analisa como esse “triângulo sagrado” vem se desfazendo em diferentes países europeus, o que abre espaço para novas referências vindas do Sul Global.
Práticas participativas, o fortalecimento de mídias independentes e a valorização das redes de colaboração surgiram como caminhos estratégicos. O debate sobre o papel dos endowments em contextos de crise também ganhou espaço, refletindo a necessidade de repensar instrumentos tradicionais de financiamento.
Neste encontro a Coordenação da RT Grantmaking optou por convidar alguns outros brasileiros que estiveram nos eventos. Assim, para Ivens Reyner (Fundo Nébula), “a potência está em traduzir essas referências para o nosso contexto, entendendo o que de fato fortalece a sociedade civil brasileira”. Ele também alertou que o avanço da extrema-direita em diferentes países impacta diretamente a sustentabilidade da filantropia no Brasil, seja pela retração de recursos internacionais, seja pelo ataque à políticas de diversidade e inclusão. Já Luisa Lima (IDIS) destacou a importância de ampliar o financiamento colaborativo e apoiar a mídia independente, enquanto Agnes Santos (Fomenta), chamou atenção para os formatos metodológicos mais horizontais experimentados nesses encontros, que podem inspirar inovações no campo brasileiro.
O encontro consolidou a RT de Grantmaking como espaço de articulação e aprendizado coletivo. Ficou evidente que, diante do avanço de forças autoritárias no mundo e das crises que atravessam nossas sociedades, a filantropia brasileira tem respondido com maturidade, criatividade e coragem. Mais do que reagir a pressões externas, a rede mostrou disposição para disputar sentidos: apoiar organizações de base, simplificar processos, investir em confiança e reposicionar o Brasil como ator relevante no campo filantrópico mundial.
Próximos passos
O próximo encontro da RT Grantmaking será no dia 02 de dezembro, das 9h00 às 12h00. O encontro irá abordar o caso do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e discutir o papel do grantmaking na agenda climática pós-COP 30.
Nos dias 23 e 24 de outubro, serão realizadas as Rodadas GIFE Grantmaking. Serão quatro encontros, um para cada perfil de associado – empresas, institutos e fundações empresariais, familiares e independentes. Os encontros buscam promover a troca de conhecimento sobre o que tem sido desenvolvido, com o intuito de identificar tendências, lacunas e ações que possam fortalecer o trabalho da Rede de Associados do GIFE na agenda de grantmaking. Estes encontros devem ainda contribuir para o próximo Plano Trienal do GIFE 2026-2028.


