Pesquisas sobre doação fortalecem o campo do grantmaking

 21 de julho de 2026 
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A produção de pesquisas sobre doação no Brasil tem se consolidado ao longo da última década como uma base importante para compreender como a população se relaciona com a doação e com práticas solidárias. Nesse contexto, duas iniciativas se destacam: a Pesquisa Doação Brasil, organizada pelo IDIS, e o Retrato da Solidariedade: Comportamento Pró-Social no Brasil, realizado pela Fundação José Luiz Egydio Setúbal. Embora partam de perguntas distintas, ambas se tornaram referências relevantes para analisar como os brasileiros ajudam, doam e se engajam socialmente. 

A Pesquisa Doação Brasil teve sua primeira edição realizada em 2015 e está atualmente em sua quarta edição. Seu objetivo central é identificar a incidência da doação monetária, especialmente quando destinada a organizações da sociedade civil, mapeando valores, perfis e tendências ao longo do tempo. Ao construir uma série histórica, a pesquisa permite observar mudanças e permanências no comportamento de doar e oferece uma leitura consistente dos fluxos da filantropia individual no país. Por isso, seus resultados são frequentemente utilizados em debates públicos, agendas de advocacy e reflexões sobre políticas e incentivos à doação.

O Retrato da Solidariedade: Comportamento Pró-Social no Brasil, divulgado em 2024 com dados coletados em 2023, está em sua primeira edição.  Ao adotar o conceito de comportamento pró-social, a pesquisa parte de outra percepção analítica, buscando compreender de forma mais ampla como a população brasileira ajuda o outro. Além da doação de dinheiro, o estudo considera práticas como doação de bens, esmola, dízimo, trabalho voluntário e doações biológicas. Essa escolha desloca o debate do foco exclusivo na doação monetária para uma investigação sobre valores, motivações, contextos e barreiras que moldam a ação solidária.

O uso do conceito de comportamento pró-social não é uma inovação isolada. Ele é amplamente utilizado  em pesquisas internacionais, especialmente nos campos da psicologia social e das ciências sociais, desde pelo menos a década de 1970. Referências como o Oxford Handbook of Prosocial Behavior, assim como painéis como o Philanthropy Panel Study (Estados Unidos) e o Giving in the Netherlands Panel Survey, utilizam esse enquadramento para analisar padrões de ajuda, cooperação e doação em diferentes contextos culturais. Ao se alinhar a essa tradição, o Retrato da Solidariedade insere o Brasil em um debate comparativo mais amplo e aumenta as possibilidades de interpretação dos dados”.

As diferenças conceituais entre as pesquisas se refletem também em seus desenhos metodológicos. Enquanto a Doação Brasil trabalha com entrevistas telefônicas e foco exclusivo na doação monetária individual, o Retrato da Solidariedade realiza entrevistas domiciliares face a face, combina uma amostra nacional com amostras de expansão e incorpora estratégias experimentais para mitigar o viés de desejabilidade social. Esses cuidados metodológicos, ajudam a explicar por que os percentuais de doadores identificados não são idênticos e por que as leituras que cada estudo oferece são distintas.

Colocadas em diálogo, as duas pesquisas permitem enxergar camadas diferentes do mesmo fenômeno. A Doação Brasil ilumina o estado da doação monetária individual no país, seus volumes, perfis e tendências. O Retrato da Solidariedade amplia o mapa ao revelar que a população brasileira apresenta altos níveis de comportamento pró-social, ainda que grande parte dessas práticas se manifeste fora das estruturas organizadas da filantropia. A solidariedade aparece com força em relações diretas, práticas religiosas e ajudas pontuais, enquanto a doação para organizações se mostra mais condicionada por fatores como confiança, estímulo e mediação institucional.

Essa leitura combinada desloca o debate de uma pergunta recorrente, mas pouco produtiva, sobre por que as pessoas não doam, para uma questão mais estrutural: o que faz a solidariedade se converter em doação e o que interrompe essa passagem. Os dados do Retrato da Solidariedade indicam, por exemplo, que muitas pessoas não doam simplesmente porque nunca foram convidadas e que critérios como causa, confiança na liderança e transparência pesam mais do que avaliações formais de impacto. A Doação Brasil, por sua vez, reforça que a confiança segue sendo um elemento central e que a fidelização de doadores permanece um desafio relevante.

Para o campo do grantmaking, essas evidências apontam para aprendizados claros. Fortalecer a filantropia não se limita a ampliar recursos disponíveis; exige investir em mediações que aproximem práticas solidárias já existentes das organizações que atuam de forma estruturada. Convite, relação, confiança e clareza institucional aparecem como elementos decisivos para transformar uma solidariedade difusa em engajamento sustentado.

Considerações finais

Ao adotar o conceito de comportamento pró-social, o Retrato da Solidariedade contribui para reposicionar o debate brasileiro em um patamar mais analítico e menos normativo. A questão central não é a ausência de solidariedade, mas a forma como ela é canalizada, institucionalizada ou interrompida ao longo do caminho.

O desafio que se coloca para o campo é o de reconhecer essas práticas solidárias já existentes, dialogar com elas e construir pontes capazes de transformar ajuda difusa em ação coletiva estruturada. Para o GrantLab, esse encontro entre evidência empírica, diálogo internacional e prática de grantmaking abre espaço para reflexões mais sofisticadas e estratégias mais alinhadas à realidade social brasileira e à complexidade do comportamento humano.