O início do iCS
Criado em 2015, o Instituto Clima e Sociedade (iCS) é uma organização filantrópica que tem como principal objetivo o enfrentamento das mudanças climáticas, com foco de atuação no Brasil.

Encontro anual da equipe do Instituto Clima e Sociedade. Divulgação/iCS.
A instituição trabalha tanto como grantmaker (realizando doações), quanto como grantee (recebendo doações), a fim de impulsionar a transformação climática no país, engajando diversos setores da sociedade — desde governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil (OSCs) — em ações de mitigação, adaptação e resiliência. As doações e parcerias estratégicas vão desde o apoio institucional e financeiro, passando por apoio ao desenvolvimento de pesquisas técnicas e científicas, formação de redes e desenvolvimento de capacidades.
Sua fundação há dez anos não foi uma coincidência. O ano de 2015 marcou a assinatura, durante a COP 21 (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, ou, em inglês, United Nations Framework Convention on Climate Change – UNFCCC), do Acordo de Paris, um marco nos tratados internacionais que abordam o clima.
Assinado por 195 partes, o acordo tem como objetivo principal “manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2ºC acima dos níveis pré-industriais” e continuar os esforços a nível global para “limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais.”
É nesse contexto do que Luiza de Mello e Souza, diretora de Gestão de Doações, Avaliação e Conhecimento do iCS, chama de ‘esperança, otimismo e positividade’ e de uma união de esforços diante da crise climática que o Instituto Clima e Sociedade é criado, enquanto uma resposta a um desejo de quatro organizações filantrópicas internacionais em ter instituições regionais que também trabalhassem o tema de mudanças climáticas.
São elas: Oak Foundation, Children’s Investment Fund Foundation (CIFF), Hewlett Foundation e ClimateWorks Foundation (CWF), sendo que essa última, assim como o iCS, também é uma regranter (termo em inglês para designar organizações que precisam fazer captação para realizar doação de recursos, geralmente em parcelas menores do que a captada).
A ideia geral era de que as organizações regionais pudessem não só receber financiamentos internacionais, mas também desenvolver e fortalecer sua expertise local para fazer doações menores a partir de grandes financiamentos. Nesse processo, começam a ser criadas iniciativas chamadas de Regional Climate Foundations – Fundações Climáticas Regionais, em tradução livre – em diferentes partes do mundo.
Na América Latina, o modelo inicial, de união com o México e sob o nome de Latin American Regional Climate Initiative (LARCI), não correspondeu às expectativas, o que levou à criação de instituições separadas nos dois países.
Depois de aproximadamente três anos realizando doações sob o nome de LARCI, em 2015 o iCS foi formalmente criado. O processo demandou algumas decisões comuns a novas instituições, a começar pelo nome.
Nesse sentido, muito além de afirmar o tema central das mudanças climáticas, o nome da nova instituição também precisava carregar uma mensagem sobre como ela encara as desigualdades que marcam a sociedade brasileira, bem como a luta por justiça social, com um olhar especial para pessoas e grupos em maior situação de vulnerabilidade e, portanto, mais afetados pelas alterações do clima. É então que surge a combinação entre “clima” e “sociedade”.
O primeiro ano do iCS foi dedicado a, de fato, organizar a instituição, o que envolveu a criação de um conselho e definição de seu escopo e forma de atuação; criação de políticas, manuais e processos internos e externos, além da construção de um sistema de gestão de doações. Esse período também foi dedicado à apresentação do iCS e de sua experiência prévia, bem como à construção e ao fortalecimento de relações institucionais com organizações brasileiras e potenciais financiadores nacionais e internacionais.
“Uma curiosidade: quando estávamos pensando no logotipo, uma das primeiras sugestões foi um desenho baseado em um pião, o brinquedo, por representar um equilíbrio no mundo no tema das mudanças climáticas. Lembro da Ana Toni, nossa diretora-executiva da época, dizer: ‘Pião é uma coisa que gira, gira e não sai do lugar. Não teremos um pião no logotipo de jeito nenhum’. Acho isso interessante no sentido de como a instituição quer ser vista no mundo. O logo escolhido tem um círculo com três padrões, representando visão, caminho e futuro – algo bem mais alinhado com o trabalho do iCS.”
Dois chapéus: doador e donatário
Denominada por alguns de ‘instituições intermediárias’ ou regranter, o Instituto Clima e Sociedade faz a ponte entre financiadores e as organizações que recebem os recursos. Isso significa que o Instituto precisa captar para ser capaz de doar, o que o coloca em uma posição, ao mesmo tempo, de donatário e doador, ou grantee e grantmaker.

Participantes do Minicurso para Embaixadores de Energia Solar da Rede Favela Sustentável (RFS) conferem as placas a serem instaladas. Foto: Alexandre Cerqueira/Revolusolar
Para Luiza, estar dos dois ‘lados da mesa’ representa uma grande possibilidade de aprendizado, pelo fato de o Instituto conhecer de perto ‘as dores e alegrias’ das duas posições.
“Tentamos não reproduzir, na nossa relação com os nossos donatários, dificuldades que eventualmente encontramos com alguns dos nossos financiadores e, ao mesmo tempo, sentimos uma responsabilidade de espelhar a atuação dos doadores que mais nos apoiam, não só financeiramente, mas nos ajudam a crescer, nos dão apoio institucional e nos desafiam a pensar fora da caixa. Buscamos aprender com isso e reproduzir.”
Os aprendizados são aplicados nas duas atuações, ou seja, como o iCS pode ser um melhor doador e como pode ser um melhor donatário.
O contexto e a temática escolhida
O tema das mudanças climáticas veio para ficar. E se o assunto já era grave e urgente em 2015, há dez anos, hoje o cenário é ainda mais preocupante.
O relatório State of the Global Climate 2024 [em tradução livre, Estado do Clima Global], iniciativa da Organização Meteorológica Mundial (OMM), avalia que 2024 foi o ano mais quente em 175 anos de história de observação.
As consequências desse aumento de temperatura variam: é possível, por exemplo, intensificar eventos naturais, como as monções, que causaram cheias históricas em setembro deste ano no Paquistão. O contrário do excesso de água também é outro cenário: o calor intenso, somado a secas e falta de chuva e umidade, contribui para incêndios. Portugal, Espanha, Grécia, Turquia, Chipre e outros países têm enfrentado chamas recorrentes durante 2025.
O Brasil também acompanhou de perto o crescimento de emergências em razão do clima. As cheias no Rio Grande do Sul, por exemplo, afetaram 478 dos 497 municípios gaúchos, e foram responsáveis por 183 mortes e 27 pessoas desaparecidas, um total de 2,4 milhões impactadas, segundo dados da publicação As Enchentes no Rio Grande do Sul – Lições, Desafios e Caminhos para um Futuro Resiliente, lançada em 2025, iniciativa da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).

Painel de abertura do lançamento do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas. Da esquerda para a direita: Edilberto Pontes – presidente do IRB, Renato Casagrande – Governador do Espírito Santo, Marina Silva – Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima e Marcos Bemquerer – ministro do TCU. O Anuário reúne informações essenciais sobre políticas climáticas estaduais, fortalecendo a governança e a transparência, ao mesmo tempo em que inspira metas mais ambiciosas de mitigação e adaptação e estimula soluções inovadoras para enfrentar a urgência climática.
Em uma situação oposta, dados do Programa BDQueimadas mostram que, entre 1º a 19 de junho de 2024, os focos de incêndio cresceram 2.951% no Pantanal se comparados com o mesmo período de 2023.
Diversos estudos e pesquisas comprovam que o fenômeno das mudanças climáticas é causado, sobretudo e principalmente, por ações humanas. Além de atividades industriais e o uso de combustíveis fósseis, ações como o desmatamento também contribuem para agravar o cenário. Segundo a Coleção 10 de mapas anuais de cobertura e uso da terra do MapBiomas, entre 1985 e 2024, o Brasil perdeu em média 2,9 milhões de hectares de áreas naturais por ano, totalizando uma redução de 111,7 milhões de hectares nesses 40 anos.
Um ponto importante que merece destaque é o fato de que ecossistemas e biomas de todo o mundo estão interligados. Uma ação em um canto do planeta pode ter efeitos do outro lado do mundo. Diferentes países pelo globo enfrentam, por exemplo, uma ameaça de sumir do mapa devido ao aumento do nível do oceano, como é o caso de Vanuatu, país insular da Oceania. Foi por conta de um questionamento de Vanuatu, inclusive, que, recentemente, a Corte Internacional de Justiça (CIJ), o principal órgão judiciário da Organização das Nações Unidas (ONU), emitiu um parecer inédito afirmando que todos os países têm a obrigação de enfrentar as causas e lidar conjuntamente com as consequências da mudança do clima, segundo informações do Observatório do Clima.
Características de um Investidor Social Privado independente
Diferente de um instituto familiar que nasce a partir da vontade de uma família, ou de um instituto empresarial que existe enquanto estratégia corporativa de uma empresa, os investidores sociais privados independentes surgem a partir de uma motivação individual ou coletiva em torno de uma causa de interesse público. O iCS seguiu esta tendência. O instituto foi concebido e criado a partir da união de esforços e da colaboração de quatro organizações filantrópicas internacionais.
Essa perspectiva colaborativa e cooperativa que inspirou a criação do Instituto é um ponto de destaque, no sentido de que nenhuma das instituições fundadoras desejava ter algum tipo de filial ou representação no Brasil, mas demandavam a existência de uma organização que pudesse receber recursos para fazer doações no país com legitimidade e conhecimento local.
O iCS não foi, entretanto, a primeira organização criada para realizar doações no Brasil, mas não existiam instituições independentes voltadas especificamente para atuar com o tema de mudanças climáticas.
“Nós já nascemos com uma perspectiva de colaboração. Quatro organizações filantrópicas colaboraram entre si para nos criar. E isso é muito raro, porque muitas filantropias querem ter seu próprio selo em algumas iniciativas e dizer ‘eu que fiz isso’. E a ideia de que nenhuma fez questão de dizer ‘isso é meu e sou eu quem decido’ é uma coisa muito bacana sobre como nascemos.”
Mitigação, adaptação e resiliência: os caminhos escolhidos pelo Instituto Clima e Sociedade para tratar as mudanças climáticas
O contexto muito específico de criação do iCS — a partir da união e soma de esforços de outras instituições filantrópicas internacionais — possibilitou que a nova organização herdasse alguns mecanismos e funcionamentos de seus fundadores, como a atuação a partir da chamada filantropia estratégica. Em linhas gerais, o termo pode ser compreendido como um tipo de filantropia que realiza uma busca ativa pelas instituições que receberão o apoio, enquanto parte integrante de uma estratégia e plano maior.
Para Luiza, a filantropia estratégica está ligada à ideia de construção de um mosaico: cada organização apoiada representa uma peça, enquanto aquela que doa os recursos tem a perspectiva de que, ao posicionar uma peça ao lado da outra, poderá formar uma imagem maior. Em outras palavras, na filantropia estratégica, o financiador tem o papel de entender as relações existentes entre as várias doações realizadas e fazer com que o conjunto de repasses financeiros, juntos, caminhem em prol de uma causa, um bem comum ou uma meta específica que se deseja.
É nesse sentido que fica mais clara a compreensão de que cada tipo de organização tem a sua atuação e funcionamentos próprios, sendo necessário combinar diferentes instituições para alcançar o resultado ou contexto esperado. Enquanto as universidades são fundamentais na construção de novos conhecimentos e realização de pesquisas, por exemplo, outras organizações podem ter maior experiência na divulgação dos resultados desses estudos.
“Ter outros atores que vão entrando nesse mosaico torna-se essencial. Ou seja, eu preciso de uma instituição que crie conhecimento e de outra que ajude a divulgá-lo. Também preciso de uma terceira instituição que faça advocacy em torno disso, que dialogue com o governo, e de mais uma organização que faça campanhas públicas e que informe a grande população usando uma linguagem totalmente diferente. Então, eu entendo a filantropia estratégica muito como juntar essas várias pecinhas e, claro, promover que elas conversem e interajam entre si, ao que elas próprias vão se entendendo como parte de algo maior e, idealmente, criando intercâmbios.”
Enfrentamento às Emergências Climáticas: estratégias de colaboração público e privada
Com foco no investimento social corporativo, o guia prático Enfrentamento às Emergências Climáticas: estratégias de colaboração público e privada, uma iniciativa da Comunitas, visa apresentar caminhos para a construção de arranjos colaborativos entre os setores público e privado e de soluções inovadoras para enfrentar os riscos, adaptar às novas realidades e reduzir as vulnerabilidades climáticas de comunidades e territórios.
Gratuito, o material apresenta o “Ciclo para o Enfrentamento às Emergências Climáticas”, uma ferramenta com as ações imediatas de resposta a desastres, as principais atribuições e necessidades do poder público, além de oportunidades de atuação do setor privado conforme suas capacidades e recursos.
Confira aqui.
Influenciando o campo
No início de sua atuação, o iCS se deparou com um número baixo de organizações da sociedade civil atuando em determinadas temáticas, como eletricidade, por exemplo. Nesse sentido, a organização empenhou esforços tanto para criar instituições do zero, como para fortalecer as que já existiam, mas tinham uma atuação menor e mais pontual, além de influenciar outras a também passarem a considerar a atuação em novos ramos e agendas.
“Isso tudo faz parte de como a gente via o nosso papel como filantropia: não é só apoiar quem já existe, é inclusive criar novas instituições. É daí que também nasce um pouco do porquê atuamos com organizações tão diversas. Em alguns temas, como aqueles ligados ao uso da terra, por exemplo, há instituições enormes que atuam no Brasil há mais de 30 anos. E faz sentido apoiá-las. Em outros temas, a gente vai trabalhar com grupos informais que nem sequer conta bancária têm, não têm CNPJ, e a gente apoia também.”
A adoção desse sistema flexível de apoios é o ponto-chave para uma diversificação maior entre os donatários. Para isso, o iCS faz uso de alguns mecanismos e ferramentas, como a estratégia de ‘agente fiscal’: outra instituição recebe os recursos e é responsável por fazer os pagamentos para o grupo informal donatário. Também existe a possibilidade de flexibilização contratual. Ou seja, o iCS conta com um modelo de contrato de doação, mas abre exceções para adaptá-lo conforme a necessidade do donatário, tendo o cuidado de manter o conteúdo essencial. No caso de universidades, por exemplo, ao realizar um apoio, o iCS pode se adaptar ao modelo de contrato da instituição de ensino.
O desenho dos eixos prioritários
O apoio a organizações atuantes em múltiplos temas também ajudou o iCS a desenhar seus eixos estratégicos, que atuam de forma transversal para potencializar e escalar os resultados dos projetos apoiados de parceiros.
Se, no início de sua atuação, o iCS trabalhava com portfólios, com o passar do tempo, a organização percebeu que precisava de uma atuação mais integrada e multidisciplinar, unindo alguns compartimentos que antes estavam separados, promovendo maior diálogo entre frentes semelhantes.
A fim de cumprir seu foco de atuar em ações de adaptação e mitigação climática, o iCS trabalha com dois eixos setoriais: “Transição energética, industrial e de transportes” e “Transição de uso da terra, dos sistemas alimentares e bioeconomia” – e as ações fundamentais nos eixos “Política climática e arcabouço institucional” e “Agentes de mudança para ação climática”.
Os dois eixos setoriais têm um aspecto físico ao promover a descarbonização da matriz e dos sistemas energéticos e industriais por meio de uma transição energética justa e na restauração de ecossistemas, na conservação da floresta em pé e no incentivo a negócios de restauração e bioeconomia. Por outro lado, os dois outros eixos lidam com políticas públicas e o arcabouço legal, seja em empresas ou no governo, e, ainda, com grupos de pessoas que se organizam para lidar com mudanças climáticas.
“O eixo ‘Agentes de mudança para a ação climática’, por exemplo, é o que tem maior quantidade de organizações pequenas e informais e com menos experiência de atuação no terceiro setor. Por isso mesmo, precisam de uma atenção especial no que se refere a apoio para seu desenvolvimento institucional.”
Recebendo propostas e as relações entre doador e donatário
Desde sua criação, o iCS conta com uma área no site dedicada ao envio das chamadas ‘propostas não solicitadas’, ou seja, demandas de apoio espontâneas, de organizações que passam a conhecer o Instituto e decidem pleitear um financiamento.
Entretanto, justamente por atuar a partir da filantropia estratégica, a maioria dos apoios realizados não tem origem nesse processo, mas sim da busca ativa por iniciativas e projetos que façam sentido num contexto maior dos apoios da instituição.
As solicitações recebidas, sejam espontâneas ou solicitadas, são avaliadas a partir do esquema chamado de ‘conjunto de critérios’, disponível no site do iCS, criado a partir da experiência prática de apoio às organizações, bem como de questionamentos e preocupações do comitê programático ou do conselho da instituição. Para o iCS, é importante, por exemplo, que as organizações apoiadas não sejam excessivamente dependentes de seu financiamento e que, portanto, invistam em uma diversidade de fontes de captação de recursos.
Fonte: Como solicitar uma doação – site Instituto Clima e Sociedade (iCS)
Luiza reforça que, em alguns casos, quando é estratégico para o fortalecimento das ações do iCS, uma mesma organização torna-se parceira em mais de um projeto ou iniciativa, pelo fato de o Instituto considerar relevante um apoio contínuo. Nesse sentido, quando se aproxima o fim da vigência de uma doação, tanto o iCS como a instituição apoiada já passam a pensar em novas possibilidades de doação, desde que faça sentido para as duas partes.
Essa dinâmica precisa ser fluida e bastante alinhada entre doador e donatário, para que o processo realmente seja de construção conjunta, respeitando os papéis de cada ator envolvido.
“Às vezes, uma ideia surge do Instituto e, em outras, o próprio donatário diz: ‘Estou pensando em fazer tal projeto’. Nós entendemos isso como uma troca intensa, na qual ambas as partes opinam e decidem. Essa é uma questão bastante importante para quem trabalha fazendo doação, de não impor a sua vontade e respeitar tanto a autonomia do donatário, como as prioridades, estratégias e funcionamentos dele, combinando tudo isso com a estratégia do doador. Ou seja, é fazer esse casamento e entender até que ponto um lado aceita, respeita e se adapta ao outro. Acho que essa é a grande arte da filantropia, essa capacidade de trabalhar junto e encontrar um equilíbrio que seja razoável para ambos os lados.”
Somado ao cultivo desses relacionamentos mais longos, o iCS também investiu, até esse momento, na realização de três editais, com o objetivo principal de alcançar outras instituições e conhecer novas iniciativas e projetos, ampliando a rede de apoiadas a partir de um chamamento público, assim como a possibilidade de intensificar parcerias em determinadas regiões do país.
“Além da motivação de conhecer o que tem pelo Brasil que está fora do nosso radar, outro objetivo foi melhorar a qualidade das propostas. Ou seja, a organização está enviando uma proposta para um processo seletivo e precisa se esforçar para ter a melhor qualidade possível, porque sabe que nós não temos recursos para apoiar todos os projetos recebidos. E, de fato, em cada um dos editais realizados, menos de 10% das propostas recebidas foram aprovadas para receber apoio financeiro.”
As temáticas de cada edital podem surgir de diferentes formas: ou a partir de todas as motivações citadas acima combinadas – vontade de encontrar novos atores, de mapear novas instituições e aumentar a qualidade técnica das propostas – ou a partir de demandas dos próprios financiadores que estão apoiando o iCS na realização do edital em questão.
Os editais lançados foram: Chamada para Projetos de Pesquisa em Economia Sustentável na Amazônia, Desafio IA Natureza & Clima e Apoio a estudos e iniciativas para a Transição energética e industrial verde e justa. Saiba mais.
A primeira edição do Prêmio iCS de Economia e Clima
Em 2025, o iCS criou o Prêmio iCS de Economia e Clima. Por ser uma iniciativa recente, Luiza aponta que os resultados e aprendizados ainda serão analisados pela equipe do iCS, mas que essa também é uma alternativa para mapear o que está sendo pesquisado e debatido na intersecção entre as questões climáticas e economia.
Criado como uma das iniciativas do Hub de Economia & Clima, que busca estimular a produção de conhecimento científico e fortalecer a conexão entre ciência, políticas públicas e estratégias de desenvolvimento sustentável, o Prêmio selecionou três estudos sobre os impactos das mudanças climáticas sobre a economia brasileira e estes foram premiados com R$ 20 mil, R$ 10 mil e R$ 5 mil.
Como o iCS avalia
Um dos temas mais caros a respeito do processo de grantmaking para o iCS é a avaliação. Por isso, essa é dividida em duas partes.
Em uma das frentes, cada projeto e doação são avaliados individualmente. O time de avaliação lê cada uma das propostas recebidas e dá sugestões de como melhorar a avaliação de determinado projeto, quais indicadores podem ser usados, quais metas devem ser designadas para a proposta, além de pensar a estrutura lógica da iniciativa como um todo. Ou seja, avaliar se faz sentido o que o projeto se propõe a fazer e a meta que ele pretende alcançar com a atividade. A equipe de avaliação também lê todos os relatórios submetidos pelos donatários. A ideia é responder a questões como: a proposta e a doação estão bem estruturadas?; o projeto foi bem executado?; entre outras.
Em um outro nível, a equipe de avaliação do iCS se dedica a observar o conjunto das doações, resgatando a ideia do mosaico pretendido a partir da atuação de uma filantropia estratégica, em que um projeto apoiado complementa o outro. Nesse contexto, algumas questões levantadas são: o que os donatários estão alcançando no conjunto de doações realizadas?; que diferença o iCS, a partir desses apoios, está fazendo no mundo?, sendo essa última uma pergunta que pode ser respondida de duas formas.
De um lado, um aspecto quantitativo: o iCS determina algumas metas sobre quais resultados deseja alcançar, e então, ao final de um ciclo de apoios, compara o que havia determinado com o que foi, de fato, realizado. Por outro lado, inspira-se em um modelo de avaliação denominado Outcome harvesting, uma análise sobre os resultados alcançados.
“Esse é um jeito de trabalhar com avaliação de temas complexos e, para nós, funciona muito bem. Nós observamos que diferenças de fato aconteceram no mundo e, se uma mudança aconteceu, questionamos se ela é relevante, se a gente contribuiu e, em caso positivo, como contribuímos. Então, fazemos uma coleção de mudanças que aconteceram no mundo, que não estão sob nosso poder de controle, nem dos nossos donatários, mas que são efeitos indiretos. Não atribuímos a nós e nem dizemos que isso aconteceu graças a gente, mas que, de alguma forma, contribuímos.”
Esse levantamento dá origem a um banco de resultados interno. Essa ferramenta passou a receber maior atenção do iCS nos últimos cinco anos e, atualmente, conta com mais de 400 resultados catalogados. Luiza explica que o Instituto se dedica a fazer análises de como ações do iCS contribuem direta ou indiretamente para alterações reais, como novas políticas públicas a partir de um estudo ou pesquisa apoiado, por exemplo.
“Eu acredito que é bem inovador para a área de filantropia atuar nesses dois níveis [de avaliação] e ser capaz de lidar com mudanças, mesmo que tenham sido imprevisíveis e que aconteçam muito tempo depois do seu projeto. Nós entendemos que determinadas mudanças demoram um tempo para amadurecer e, de fato, acontecer.”
Caminhos para ampliar o ISP na agenda climática
Estudos recentes mostram que a temática central de atuação do iCS – a agenda climática – ainda não tem feito parte do dia a dia das instituições do investimento social privado (ISP). Uma pesquisa da ClimateWorks mapeou que apenas 2% dos recursos mundiais da filantropia são destinados ao tema de mudanças climáticas.
Os dados do último Censo GIFE 2024/2025 mostraram que dos 138 respondentes (de um total de 165 associados), 63 organizações afirmam investir em clima e mudanças climáticas. Essa grande frente se subdivide em dez focos de atuação.
A maior concentração de organizações se dá na atuação com educação ambiental e mobilização comunitária (44%), seguida de adaptação e resiliência aos eventos climáticos extremos (32%), justiça climática e reparação (32%) e energias renováveis e eficiência energética (27%). Outras temáticas de interesse são gestão de resíduos e/ou economia circular (22%), restauração florestal e ecológica (22%), sistemas alimentares e uso do solo (22%), conservação da biodiversidade de fauna (19%), recursos hídricos e oceanos (13%), combate ao desmatamento e a grilagem de terra (5%).
Entre os seis biomas que compõem a biodiversidade brasileira – Amazônia, Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica, Caatinga e Pampa -, a Amazônia teve, em 2024, a maior concentração de organizações (78%), e, consequentemente, impactos positivos por investimentos. Em seguida, a Mata Atlântica, com 68%, e o Cerrado, com 62%. Com índices menores, vem a Caatinga (42%), Pantanal (25%), e Pampa (20%).
A principal estratégia de atuação escolhida por 66% das organizações no ano passado foi a incorporação do tema de mudanças climáticas de modo transversal às outras áreas de atuação já existentes. A produção e disseminação de conhecimento, por sua vez, foi escolhida por 55% das instituições. A atuação efetiva nos territórios foi escolha de 45%, enquanto o advocacy para questões climáticas foi colocado em prática por 26% das organizações.
Diante deste cenário, há um caminho ainda longo a ser percorrido para que mais instituições passem a atuar nesta agenda urgente e fundamental. Nesse sentido, o iCS tem buscado influenciar outros atores do campo. A diversidade de instituições que compõem a rede do Instituto Clima e Sociedade é um dos diferenciais da organização, por sua capacidade de promover um diálogo intersetorial com organizações e movimentos da sociedade civil, empresas e diferentes níveis do governo, facilitando interações entre eles.
O trabalho do iCS não visa, portanto, o emprego dos recursos financeiros próprios para a realização direta de mudanças no contexto das alterações climáticas, mas sim de influenciar, por exemplo, as políticas públicas para que essas, com o poder do orçamento público, possam fazer a diferença.
“Em um exemplo bastante básico, não se trata de nós, enquanto iCS, comprarmos ônibus elétricos para substituir os ônibus a diesel. Mas, podemos impulsionar políticas – a partir de dados de pesquisas – que podem dizer: ‘Vamos investir mais em energia renovável e menos em combustíveis fósseis’. É aí que está nossa maior capacidade de atuação. É uma ideia de trabalhar para, indiretamente, alcançar os resultados desejados e diminuir a emissão de gases de efeito estufa.”
Apesar de hoje realizar outras ações além da doação e repasse de recursos, a primeira razão de existir do iCS foi o grantmaking, tema caro à filantropia. Segundo Luiza, a organização entende o GIFE como um espaço importante de debate e troca de experiências sobre filantropia no Brasil, além da possibilidade de influenciar positivamente outras instituições a respeito da atuação no tema de mudanças climáticas e da realização de grantmaking.
Além disso, o iCS é signatário, ao lado de mais de 40 instituições, do Compromisso Brasileiro da Filantropia sobre Mudanças Climáticas. Inspirado em experiências internacionais de associações de filantropia que firmaram compromissos nacionais, como no Canadá, Espanha, França, Itália e Reino Unido, além das experiências de organizações da sociedade civil, o acordo brasileiro tem como objetivo servir como uma plataforma como de ação, aprendizado e coordenação de esforços da filantropia brasileira diante da agenda climática.
O iCS também integra a Rede Comuá, espaço que reúne fundos temáticos, comunitários e fundações comunitárias, sendo todos organizações doadoras (grantmakers) independentes.
Próximos 10 anos
O ano de 2025 é duplamente especial para o Instituto Clima e Sociedade. Ao mesmo tempo em que marcou o aniversário de dez anos da organização, representou também a realização da primeira COP no Brasil, mais especificamente em Belém, no Pará. Entre os dias 10 e 21 de novembro, delegações de dezenas de países estiveram presentes na Amazônia brasileira para participar da COP 30 e discutir medidas, estratégias e caminhos para frear as mudanças climáticas no mundo inteiro.

Evento Scaling Nature Finance in Brazil no Pavilhão Brasil na COP28 em Dubai, 2023, com mediação de Maria Netto, diretora-executiva do iCS. Divulgação/iCS.
Se a primeira década do iCS foi dedicada majoritariamente à mitigação, Luiza aponta que também se faz urgente e necessário trabalhar com a adaptação de espaços, comunidades e regiões diante dos efeitos cada vez mais graves e crescentes das alterações climáticas.
O tema, entretanto, é acompanhado de um desafio de captação de recursos, uma vez que grande parte dos financiadores do iCS são internacionais e direcionados para ações de mitigação, por acreditarem que organizações brasileiras são as responsáveis por financiar ações de adaptação. Por outro lado, esse é um tema ainda pouco valorizado, com baixa mobilização por parte de instituições filantrópicas.
Um caminho que se apresenta, portanto, é o próprio iCS repensar suas formas de captação de recursos e considerar se existem outras possibilidades de financiamento para além da filantropia, que, atualmente, é sua principal fonte.
Diretamente conectada à atuação na pauta climática também está a relação com o governo no poder e o contexto político nacional e internacional. Durante seus dez anos de atuação, o iCS já atuou com administrações que se diziam pró-clima e demonstravam abertura e preocupação com o meio ambiente, e, por outro lado, também já atuou na interface com governos que questionavam a própria existência e veracidade das mudanças climáticas.
“Tem uma parcela da nossa atuação que depende do contexto, no sentido de: ‘Estamos em uma fase em que conseguimos avançar nessa agenda [das mudanças climáticas] e ter ganhos? Ou estamos em uma fase em que temos que atuar mais para conter retrocessos e não deixar a situação piorar?’”
Além disso, promover uma mobilização para que o tema das mudanças climáticas não seja polarizado, e sim encarado como um assunto de todos, também é um grande desafio.
“A gente precisa que todos estejam atentos, porque todos são afetados. Quer você acredite em mudanças climáticas ou não, quando a rua alaga, ela alaga para todo mundo, mas afeta mais as populações em maior vulnerabilidade.”
Escute aqui a participação da Luiza de Mello e Souza em um dos episódios da Série Grantmaking, produzida pelo GIFE.
Fique por dentro
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Fontes:
> Brasil perdeu 111,7 milhões de hectares de áreas naturais em 40 anos, aponta Mapbiomas
> Enchentes no Paquistão já desalojam 2 milhões
> Enfrentamento à mudança do clima´e dever de todos os países, decide Corte da ONU
> Extreme fire weather conditions in Spain and Portugal now common due to climate change (em inglês)
> O Acordo de Paris (em inglês)
> State of the Global Climate 2024
> Wilson-Graffar, R., & Britt, H. (2013). Outcome Harvesting. Ford Foundation